quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

- DACGEE -

A ti dedico, agora,
um momento
em meu pensamento.
Imesurável, de tão curto,
se pensar em outros momentos
que, em saudosos tempos,
te dedicava
com tanta intensidade
e tanta paixão,
como ingenuidade
e adoração!

Oh! Como te amava!
Como te perseguia
meu pensamento,
noite e dia,
incansável,
insaciável,
antevendo o momento
em que te reencontrava!
Estar contigo
era tudo o que desejava.
Ver-te, era um despertar
de sensações,
de desejo, de emoções...
Como o viajante do deserto
que encontra o oásis,
e só então
se apercebe
da dimensão
da sua sede,
também eu,
quando contigo me encontrava,
compreendia
o quão de ti precisava!
A tua presença,
o teu amor,
eram tudo de que dependia!
Eras o meu hábito,
o meu ópio!
Contigo eu era completo!

Rebolávamos
na areia,
brincávamos
nas ondas,
e sentia teus lábios,
salgados
e húmidos
do mar...
No meu ombro, adormecias
e eu
contemplava-te,
com ternura
acariciava-te
e tu sorrias,
como só tu
o conseguias!
Falávamos dos montes,
do seu erotismo;
das estrelas,
do seu enigmatismo;
de longínquos países,
do seu exotismo...
das pessoas,
dos desejos,
dos receios,
dos ídolos...
Ouvíamos Bruckner
e Strauss
e Brahms;
amávamos Mahler!
Fazíamos serão,
embriagávamo-nos,
saíamos para o jardim
e contemplávamos
o espaço celestial...
enebriávamo-nos
de odores,
de ruídos,
de brisas suaves!
Cultivávamos
a noite
e esquecíamo-nos,
extasiados,
a pintar
o luar
com o fumo de um cigarro...
Como a existência
era bela...
e fácil...
Nós e o Universo
bastávamo-nos!

Mas a ferida
que Cupido
em nós abriu,
não foi demasiado profunda
e depressa sarou.
Tu cresceste
e deixaste
que o egoísmo,
a ambição,
a ostentação,
o cinísmo,
te conquistassem...
deixaste
que a juventude,
a ingenuidade,
te abandonassem...
Conheceste
novas pessoas
e seus materialismos,
outros amigos
e seus comodismos,
suas obcessões
por sucessos,
as tentações
dos seus modos de vida...
não cuidaste
que são ilusões
e embarcaste
na vulgaridade das suas
aspirações.
Tornaste-te
em alguém
igual
a outrem...
perdeste a aura
particular,
única,
que te distinguia
qualquer
outra,
que me prendia
à tua imagem
sedutora!
Viveste,
mas não soubeste
usar
o que essa sábia
escola,
a vida,
te instruiu -
- qual biblioteca
empoeirada!? -
- conheceres,
perdeu-te,
afastou-te,
vulgarizou-te...
Cometeres
o pecado original
não foi grave,
mas não
compreenderes
que o fruto
que colheste
da árvore da vida
te deu
a capacidade
de compreenderes
o que é certo,
o que não o é,
e a possibilidade
de escolheres
o que era
e o que é,
ignorares
esta verdade,
é,
sei-o,
negares
a tua vontade.

Resta-me,
agora,
o vazio
da recordação,
da nostalgia,
da resignação,
e a
(inútil?)
esperança
de que,
um dia,
adormeças e voltes
a sonhar,
esqueças a realidade
vã,
vegetativa,
que é a vulgar
existência
e,
de novo,
voltemos a ser habitados
pela inocência
e onirísmo
da nossa
anterior
vivência...
Agénio Inepto
(algures, na pré-adolescência)

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