- Pastoral -
Estendo a minha preguiça no musgo fresco
e entrelaço as mãos apoiando na nuca.
e entrelaço as mãos apoiando na nuca.
Pernas estendidas, cruzo os pés.
Fecho os olhos e esqueço-me.
(Cristo crucificado...)
Vê-se melhor com os olhos fechados.
Pássaros que cantam, esvoaçam, formigas que passeiam
nas minhas pernas,
um lagarto que, perto, corre, pára, mexe-se, quieta-se,
bulhando as folhas secas, inconstante.
(que bicho indeciso!)
O perfume a resina, o aroma dos eucaliptos...
A frescura do musgo e o calor de um intenso raio de sol
que as copas vastas mesmo assim, condescendentes,
deixam infiltrar.
Descerro os olhos e o encanto esvai-se
à medida que a visão subjuga os outros sentidos.
Fecho-os de novo com violência.
Volto a sentir, a sentir-me...
Mas as formigas, desta vez nas mãos, e de natureza diferente...
Formigueiro que me entorpece.
Soergo-me e sacudo os membros energicamente
até que a circulação se normalize.
Gosto mais das outras formigas. Das reais.
Não impedem que sinta, não me adormecem o tacto.
Fazem com que tenha acerteza
que sentir é da minha natureza. Acariciam.
O lagarto, esse foi-se.
Metamorfoseou-se num coelho ou lebre que, não longe,
se apercebe sobre um relvado
(como pantufas sobre alcatifa...).
Mais logo, quando este raio de sol não conseguir mais
intrometer-se na intimidade que o pinhal resguarda,
as aves que cantam e esvoaçam
também se irão.
Virão outras. Mais tímidas, mais lúgubres...
Então será noite.
Este frio de oiro que me aquece será um reflexo de prata.
Estarei aqui ainda quando for essa hora?
Talvez.
Talvez se me esquecer que não posso...
Agénio Inepto
(algures, na pré adolescência)
