quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

- MARIA -


Maria, que todos conheceM,
aos que em sua volta teceM
raros são os que a mereceM,
ingratos tanto que a entristeceM
outros de intrigas que a envelheceM.


Mas alguns eleitos hÁ
aos quais nunca se recusarÁ;
risos é o que de melhor terÁ,
ignorado jamais se sentirÁ,
aquele que nunca a negarÁ!


Mau grado muito a magoaR,
apesar de o não intencionaR,
ri-se em vez de choraR,
intentando me ensinaR
a sempre viver a cantaR!


Muito sempre lhe devI;
as lições que lhe ouvI,
recomendações que lhe entrevI;
inchado de orgulho fiquei, quando revI,
aqueles momentos que vivI!


Maria, que é alegriA,
a si própria nada queriA.
Recordar a sua sabedoriA,
impregnada de ironiA,
aviva em mim a nostalgiA.


Agénio Inepto
(algures, na pré-adolescência)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

- Pastoral -

Estendo a minha preguiça no musgo fresco
e entrelaço as mãos apoiando na nuca.
Pernas estendidas, cruzo os pés.
Fecho os olhos e esqueço-me.
(Cristo crucificado...)
Vê-se melhor com os olhos fechados.
Pássaros que cantam, esvoaçam, formigas que passeiam
nas minhas pernas,
um lagarto que, perto, corre, pára, mexe-se, quieta-se,
bulhando as folhas secas, inconstante.
(que bicho indeciso!)
O perfume a resina, o aroma dos eucaliptos...
A frescura do musgo e o calor de um intenso raio de sol
que as copas vastas mesmo assim, condescendentes,
deixam infiltrar.
Descerro os olhos e o encanto esvai-se
à medida que a visão subjuga os outros sentidos.
Fecho-os de novo com violência.
Volto a sentir, a sentir-me...
Mas as formigas, desta vez nas mãos, e de natureza diferente...
Formigueiro que me entorpece.

Soergo-me e sacudo os membros energicamente
até que a circulação se normalize.
Gosto mais das outras formigas. Das reais.
Não impedem que sinta, não me adormecem o tacto.
Fazem com que tenha acerteza
que sentir é da minha natureza. Acariciam.
O lagarto, esse foi-se.
Metamorfoseou-se num coelho ou lebre que, não longe,
se apercebe sobre um relvado
(como pantufas sobre alcatifa...).
Mais logo, quando este raio de sol não conseguir mais
intrometer-se na intimidade que o pinhal resguarda,
as aves que cantam e esvoaçam
também se irão.
Virão outras. Mais tímidas, mais lúgubres...
Então será noite.
Este frio de oiro que me aquece será um reflexo de prata.

Estarei aqui ainda quando for essa hora?
Talvez.
Talvez se me esquecer que não posso...

Agénio Inepto
(algures, na pré adolescência)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

- DACGEE -

A ti dedico, agora,
um momento
em meu pensamento.
Imesurável, de tão curto,
se pensar em outros momentos
que, em saudosos tempos,
te dedicava
com tanta intensidade
e tanta paixão,
como ingenuidade
e adoração!

Oh! Como te amava!
Como te perseguia
meu pensamento,
noite e dia,
incansável,
insaciável,
antevendo o momento
em que te reencontrava!
Estar contigo
era tudo o que desejava.
Ver-te, era um despertar
de sensações,
de desejo, de emoções...
Como o viajante do deserto
que encontra o oásis,
e só então
se apercebe
da dimensão
da sua sede,
também eu,
quando contigo me encontrava,
compreendia
o quão de ti precisava!
A tua presença,
o teu amor,
eram tudo de que dependia!
Eras o meu hábito,
o meu ópio!
Contigo eu era completo!

Rebolávamos
na areia,
brincávamos
nas ondas,
e sentia teus lábios,
salgados
e húmidos
do mar...
No meu ombro, adormecias
e eu
contemplava-te,
com ternura
acariciava-te
e tu sorrias,
como só tu
o conseguias!
Falávamos dos montes,
do seu erotismo;
das estrelas,
do seu enigmatismo;
de longínquos países,
do seu exotismo...
das pessoas,
dos desejos,
dos receios,
dos ídolos...
Ouvíamos Bruckner
e Strauss
e Brahms;
amávamos Mahler!
Fazíamos serão,
embriagávamo-nos,
saíamos para o jardim
e contemplávamos
o espaço celestial...
enebriávamo-nos
de odores,
de ruídos,
de brisas suaves!
Cultivávamos
a noite
e esquecíamo-nos,
extasiados,
a pintar
o luar
com o fumo de um cigarro...
Como a existência
era bela...
e fácil...
Nós e o Universo
bastávamo-nos!

Mas a ferida
que Cupido
em nós abriu,
não foi demasiado profunda
e depressa sarou.
Tu cresceste
e deixaste
que o egoísmo,
a ambição,
a ostentação,
o cinísmo,
te conquistassem...
deixaste
que a juventude,
a ingenuidade,
te abandonassem...
Conheceste
novas pessoas
e seus materialismos,
outros amigos
e seus comodismos,
suas obcessões
por sucessos,
as tentações
dos seus modos de vida...
não cuidaste
que são ilusões
e embarcaste
na vulgaridade das suas
aspirações.
Tornaste-te
em alguém
igual
a outrem...
perdeste a aura
particular,
única,
que te distinguia
qualquer
outra,
que me prendia
à tua imagem
sedutora!
Viveste,
mas não soubeste
usar
o que essa sábia
escola,
a vida,
te instruiu -
- qual biblioteca
empoeirada!? -
- conheceres,
perdeu-te,
afastou-te,
vulgarizou-te...
Cometeres
o pecado original
não foi grave,
mas não
compreenderes
que o fruto
que colheste
da árvore da vida
te deu
a capacidade
de compreenderes
o que é certo,
o que não o é,
e a possibilidade
de escolheres
o que era
e o que é,
ignorares
esta verdade,
é,
sei-o,
negares
a tua vontade.

Resta-me,
agora,
o vazio
da recordação,
da nostalgia,
da resignação,
e a
(inútil?)
esperança
de que,
um dia,
adormeças e voltes
a sonhar,
esqueças a realidade
vã,
vegetativa,
que é a vulgar
existência
e,
de novo,
voltemos a ser habitados
pela inocência
e onirísmo
da nossa
anterior
vivência...
Agénio Inepto
(algures, na pré-adolescência)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

- Conhecer-te -

Quem me dera
que o momento que passou
adiasse eternamente
a sua era,
e o sentimento que ficou
fosse puramente
ilusão mera...

Agénio Inepto
(algures, na juventude latente)